segunda-feira, abril 21, 2014

Temos tão pouco tempo.

Escrever sempre foi a minha grande paixão na vida. Se pudesse escreveria todos meus pensamentos. Cada detalhe deveria se descrito com cheiro, gosto e cor. Achava que não sabia fazer isso até o momento em que me vi lendo meus diários de 10 anos atrás. Faço um apelo ao tempo: será que dá para você andar mais devagar? Diante de tantos acontecimentos recentes, quase me esqueci de onde vim, de quem fui e quais eram meus maiores contos emocionais.

 Esse blog é dedicado a falar da minha vida materna, mas hoje peço uma trégua. Aliás não tenho como apenas falar da minha vida materna se o que tenho hoje são sentimentos diretamente proporcionais. Dez anos atrás eu já tinha planos de ser quem eu sou hoje. A única diferença é que não planejava ter tantas cicatrizes no caminho. Naquela época enquanto escrevia,nem imaginava que iria viver a mais do que quem planejava tudo aquilo junto comigo.

Falar de carreira e filhos, era algo corriqueiro no nosso relacionamento. Eu queria ser advogada, lutar pelos direitos das pessoas e impor minha forma de ser ao mundo. Ela queria ser publicitária. Me dizia isso com tanto gosto que eu imaginava que publicidade era algo fora da minha realidade, só ela poderia exercer tal função com sucesso. Os filhos viriam depois, primeiro moraríamos juntas, estudaríamos, queríamos ser bem sucedidas. Eu escrevia que queria morar em Londres, numa quitinete com uma daquelas banheiras antigas. Ela não tinha um país de preferência, mas queria viver um grande amor. Um amor que gerasse casamento, frutos. Acho que foi nessa hora que eu resolvi me planejar para ter um filho aos 25 anos. Não porque queria casar e viver um grande amor também. Mas porque o dia que ela saísse da minha vida, eu iria me sentir muito só, talvez na minha cabeça apenas o amor de mãe e filho poderia substituir aquele sentimento. Mal sabia eu que estava cantando o futuro.

 Naquele mesmo ano, eu e ela, tivemos diversos tipos de intriguinhas. Nos afastamos, não perdemos o contato mas perdemos a intimidade. Passei um ano longe, sem saber ao certo se aqueles planos continuavam o mesmo. Hoje entendo que a vida foi gentil comigo. Tinha que ser assim, jamais aguentaria o baque de não se estar aqui de um dia para o outro. No dia de sua partida, conversamos, demos risadas, lembramos dos dias em que dormíamos uma na casa da outra, o final de semana no sítio e claro os planos para o futuro que já não era tão futuro assim. Prometemos que iríamos retornar de onde paramos. Afinal a vida era curta demais. Na manhã seguinte eu recebi um telefonema que me notificava de seu falecimento. Fiquei tão sem chão que não tive outra reação se não quebrar o telefone. A minha amiga de apenas 16 anos tinha falecido. Meus pais, na esperança de ser um trote de mal gosto, ligaram para a casa dos pais dela. Era verdade. Minha amiga, aquela que tinha sido minha melhor amigos nos últimos 6 anos da minha vida, tinha deixado nossos planos para trás.

Passei anos sem tocar nas minhas agendas da escola, sem ler suas cartas, sem recordar nada que me lembrasse que fiquei o último ano de sua vida afastada. Doía tanto saber que somos fracos. Que todos temos defeitos. Parece que a morte trás tudo isso à tona e que só diante dela admitimos. Eu sei que ela deixou um grande vazio no meu peito. Mas sei também que veio dela essa minha vontade de viver indiferente dos tombos. Veio da nossa experiência admitir que vale muito mais a pena perdoar as pessoas e aprender a conviver com as falhas. Estranho pensar que eu fiz tudo o que estava planejado e ela não estava aqui para ver.

Me formei na profissão que ela almejava. Tive filha aos 25 anos. Morei em Londres, na Irlanda, na Espanha. Vivi um grande amor. Quantas coisas vivi sem ter ela ao lado. Maiores ainda são quantas coisas vivi em homenagem à ela. Hoje, 9 anos depois do seu falecimento, eu só queria dizer que ainda me lembro graças aos meus diários e cartas. Sinto saudades, mas não mais aquela que me fazia chorar acordada. Hoje posso dizer que aprendi a conviver com a perda, que entendo que cada um tem a sua hora. Queria que você estivesse aqui, para ver quem me tornei. Uma mãe maluca, uma profissional maluca, uma pessoa que se julga incomum por saber sentir. Sentir e saber que o mundo é mais feliz quando encontramos pessoas tão incomuns quanto a gente. Me lembro que a gente cantava muito uma música que dizia que tínhamos que viver nossos sonhos, tínhamos pouco tempo para viver. Foi assim com você. Mas jamais será assim com o nosso amor. Amor eterno por você pequena!


Marília Fechio

quarta-feira, abril 02, 2014

Profissional x Maternidade

 Quando eu tinha mais ou menos uns 8 anos decidi o que queria ser na vida: bem sucedida. Sabia que queria ser uma pessoa que não dependesse de ninguém, que pudesse pagar suas próprias contas, fosse e voltasse a qualquer instante sem dar maiores explicações. Aos 15 fazia planos de viajar mundo a fora, conhecer lugares, pessoas e morar sozinha. Não que eu não curtisse meus pais, mas éramos de épocas tão diferentes. Achava que dali 10 anos iria estar bem sucedida, formada, pós graduada e pensando em formar um lar para chamar de meu à minha maneira.

Nesse tempo de fato consegui viajar o mundo, conhecer lugares, pessoas, constitui minha família que é você, porém em algum lugar no meio do caminho meu sucesso falhou. Nesses 26 anos de vida, o que mais tive no meu caminho profissional foram nãos. Quando sai do país para estudar, fui com um desgosto imenso do Brasil. Sai daqui de um emprego que me dedicava diariamente, amava o que fazia, mas era tratada como um número. Uma mera estagiária que não fazia mais que a obrigação e que um belo dia encontrou sua carteira de trabalho jogada no lixo. Eu estava me doando inteiramente naquela oportunidade. Decidi abandonar o barco. Queria mais, queria fazer alguma coisa memorável, conquistar o mundo, trabalhar em algo que me desse visibilidade para o bem, me desse qualidade de vida, me evoluísse como ser humano. Queria conviver com profissionais que me enchessem os olhos, pessoas que eu realmente admirasse, que acreditassem no meu potencial e investissem nisso. 
Foto: Fábio Morais 

A época na Irlanda me fez perceber que eu poderia ter tudo o que almejava. Fiz muitos trabalhos por lá ( muitos deles de graça!) que me renderam sensações e experiências boas. Fui convidada para escrever em uma revista, dar assistência em produção de fotografia, fiz fotos jornalísticas incríveis, era elogiada diariamente. Carreguei comigo um amor pela profissão que eu nunca tinha tido antes. Tudo tão diferente. Outra forma de valorização, que me deu coragem de voltar para o Brasil. Achava que eram essas experiências que eu precisava para conseguir um emprego seguro por aqui.

Voltei grávida. Tive que dar uma pausa nos meus planos, sabia que não seria mais como antes porém nem tudo estava perdido. Não ficaria sem emprego, já que sou qualificada, tenho experiência na área e além dela. Com a sua chegada eu fiquei mais selectiva. Trabalharia se fosse para trabalhar em algo rentável. Algo que me desse a possibilidade de pagar seus estudos, seu plano de saúde, seu lazer. Antes era apenas eu, minhas vontades infantis. Agora eu tenho você, necessidades mudadas. Deixar você sem ter do bom e do melhor é me considerar a pior mãe do mundo. Tive que fazer algumas escolhas no caminho. Vez ou outra consigo pegar um freelancer bacana. Porém nem tudo foram escolhas, ter que conviver com as escolhas de terceiros me doe a alma, aumenta minha desilusão no futuro.

 Tento insistentemente desde Novembro entrar em uma empresa de médio para grande porte, sem sucesso algum. Passo na maioria das etapas, fico entre as finalistas, e ai então vem a mensagem: Agradecemos a sua participação. Seu currículo é muito bom, mas no momento optamos por outro candidato. A cada mensagem dessa é como se tirassem uma crença minha. A sensação que tenho é que você vai me olhar e achar que sou uma zé ninguém. Alguém que nunca é escolhida como a melhor das opções.
Hoje escrevo para você com lágrimas nos olhos por ter recebido mais um não em algo que tinha como certo. Vejo você crescendo, se arriscando nos primeiros passos e choro. Choro de emoção e de dor por saber que esses são apenas seus primeiros tombos. Ah meu amor! Se eu pudesse te impedir de cair e criar um caminho só com cores alegres e sim para você, de certo eu o faria. Só quero te dizer, por hoje, só por hoje, que a minha insistência é por você. Que venho tentando diariamente me manter erguida construindo nosso lar. Talvez demore mas vou te dar toda a segurança necessária para você chegar onde você quiser. Tem dias que a minha vontade é largar tudo. Fecho meus olhos, respiro fundo, te enxergo sorrindo, caindo e levantando entre um passo e outro, sinto vontade de continuar. Você é a minha esperança. Você é a minha fé num futuro melhor. Saiba que tudo o que eu sou hoje e serei no amanhã foi você quem construiu. Ninguém vai tirar seu mérito. Mamãe te ama!

segunda-feira, março 31, 2014

Uma pausa para um desabafo.


 Semana pasada eu tomei um fora. Tomei um fora de alguém que mal me beijou. Sendo bem sincera, o beijo rolou 6 anos atrás, numa formatura, com uma música de fundo que eu sempre detestei ( mas que hoje faz parte da minha playlist!), com detalhes que a minha cabeça apagou. Não apagou pelo fora da semana passada, apagou porque não teve continuação.

Meus pais sempre me questionaram porque eu nunca dei bola para o tal rapaz. Bom partido, charmosinho, gerente de TI, inteligente, educado, carro importado, tudo o que todas as garotas queriam. Menos eu. Passaram seis anos, eu namorei, juntei, engravidei e voltei a ficar solteira. De tanta insistência, de tanto escutar que eu estava encalhada, resolvi dar uma chance ao que parecia ser o mais certo dentro das opções. Afinal, quem era o fofo da vez? Que me deu apoio moral quando minha vó morreu? Quem me segurou para eu não pisar no meu vestido e cair na tal formatura? Quem era capaz de aguentar minha chatice e me perdoar por beijar seu amigo na frente dele? Pois é. Fofo, de tudo de tudo. Um lord inglês. E eu até nutria um sentimento que vinha crescendo diariamente. Pena que sempre existe a página dois.

O fora aconteceu por conta de um piti de minha parte. Como disse meu ex namorado ( que não tem nada de Lord!): "Marília você é sincera demais para esse tipo de gente. Caras fofos, merecem meninas fofas, que aceitam qualquer coisa, abaixam a cabeça e dizem amém. Caras fofos fogem de problemas. De gente com personalidade forte, que fala o que vem na cabeça. Quando aparece alguém que cria 455690 problemas para eles, eles caem fora. Você vai tomar um fora e não vai demorar. Procura outro, que esse aí não tem cacife para te aguentar não. "

Praga de ex namorado ou não, foi o que aconteceu. Em 4 dias de briga além de me dar um fora, ele contou para a minha vizinha. Conclusão, passei a semana inteira escutando as pessoas me darem conselhos amorosos. Micagem do ano na conta dos Micos da vida. O problema é que quem não é fofa sou eu. Eu sou a ogra da história. Maior problema ainda é não querer mudar. Os meus melhores relacionamentos eram na base da sinceridade dos sentimentos. De deixar a pessoa ser livre para o que ela quiser ser. Naquela coisa de surta hoje que amanhã é a minha vez. E eu te perdoou, quantas vezes forem necessárias. Foi assim com o pai da minha filha e a gente foi feliz. Fomos sim. Não é porque acabou que não tivemos um final feliz. E nem é porque é um começo que tudo serão flores. 

Dia desses fui em uma moça que abre cartas e ela me disse que o Adrian não valia nada. Discordei. Ele valia tudo na nossa história, e é isso que vai permanecer. Não interessa o tanto de briga que a gente teve, se ele foi cruel, se eu fui irritante, se a gente se machucou. Interessa os momentos que passamos bem. Interessa o dia que perdemos a chave de casa e quando achamos rimos até a barriga doer. Interessa os dias no parque, os encontros noturnos, a aventura na montanha. Interessa o fruto dessa conexão. Isso é indiferente de terminar juntos ou não.

Nesse caso, interessaria os momentos que ainda estavam por vir. O riso frouxo de tudo isso. A alegria de se reconciliar sem dar tempo para as coisas esfriarem. O cheiro do cabelo no travesseiro. O abraço ansioso na chegada. Uma pena nem todos pensarem assim e desistirem tão fácil das coisas. Desistir por se falar demais? Melhor seria não se comunicar? Fechar a boca, deixar o que te ofende crescer em você e explodir nos momentos mais errados? Existe certo e errado para ser ou deixar de ser? Não sei, diante de tudo isso a única coisa que tenho à dizer: eu gosto da minha solidão quando ela me poupa de pessoas camufladas. Sou sincera. Sou explosiva. Ciumenta. Em contra partida sou quem volta atrás. Quem sente saudades e não deixa a coisa esfriar. Aquela que jamais vai desistir de você por uma briga. Você pode ser capaz de me dar um tapa na cara, vou esbravejar, vou desligar na sua cara, vou dizer que você é imaturo e que te odeio, mas se amanhã ou depois eu escutar uma desculpa sincera, vou te abraçar e esquecer do que passou. Não sou de muitos eu te amo, não tanto quanto parece. Por tanto se eu disser que te amo, acredite, porque é raro encontrar tamanha devoção. Porém um dia a gente cansa e percebe que o ditado faz todo sentido do mundo. Estar sozinha não é ser boa demais para os outros, é ser boa o suficiente para si mesmo. Fecho essa coluna dando um conselho para os ficantes, namorados, casados, P.A e afins : Se deem ao luxo de se reconciliarem. A vida vale muito mais a pena quando nos arriscamos a conviver com aquilo que nos da medo. Não perca a oportunidade de se explorarem dia a dia. Conversem. Discutam. Briguem e se amem o dobro a cada vez que isso acontecer. O amor sempre vai ser muito melhor que qualquer desavença. Palavra de uma amante profissional, que apesar de ter sido a bola murcha da vez, continua amando e acreditando intensamente no melhor!



Marília Gabriela Fechio

terça-feira, março 25, 2014

10 meses e alguns surtos depois.



Foto: Fábio Morais


 Lá se foram 10 meses. A minha intenção de escrever diariamente, o objetivo foi para o saco assim que você começou a ficar mais tempo acordada do que deveria. Em 10 meses eu sofri queda de cabelo, perdi 18 quilos e surtei diversas vezes por motivos banais. Ainda sinto os efeitos da gravidez em mim. Meu humor não voltou ao normal ( não que ele fosse bom!), minhas roupas não me servem e eu não tenho mais aquela energia dos 20 e poucos. Estranho pensar que antes de você eu parecia uma menina adolescente e agora já tenho minhas primeiras rugas. 

Foto: Fábio Morais
Mas não vim aqui falar das minhas rugas. Vim relatar o que eu vi e vivi nesses 10 meses de sua curta e intensa vida. Logo após de seu nascimento, o seu plano de saúde te permitiu ser assistida especialmente por um médico especialista em prematuros. Todo mês fomos ao hospital e vimos crianças com diversos problemas. Era engraçado as pessoas me perguntarem o que você tinha e eu responder que não tinha nada. Vi crianças com 3 meses com mais de 12 cirurgias cardíacas. Bebês que mal conseguiam respirar com a mudança de tempo. Certa vez conhecemos a Laura, ela tinha um ano, era do tamanho de um bebê de seis meses, nasceu com 24 semanas, era um verdadeiro milagre da vida. Eis que hoje você recebeu alta para dar vaga à essas muitas crianças que necessitam de acompanhamento especializado. Foi sua primeira grande boa ação na vida. Teoricamente, você deveria ser acompanhada até seu primeiro ano de vida, porém devido ao seu esforço, você ultrapassou limites de uma criança com mais de um ano e recebeu alta. Que orgulho! Primeira fase de seu crescimento resolvida, você já não tem nenhum sinal de prematuridade.

Outra grande fato que aconteceu foi que sua mãe nessa jornada quase enlouqueceu. Eu me vi dando um passo para a frente e três para trás. Entrei na neura de conseguir um emprego. Foi meio maluquice e eu não media as coisas, ia apenas pela razão de te dar sustento. Chegava em casa mal conseguia olhar para a sua cara de tão cansada. Jornada dupla. Tive um surto de pressão alta e batimentos acelerados. O médico considerou como princípio de enfarto, porém eu sei que era mesmo apenas uma pequena crise de pânico. Pois é. Lá estava eu diante de mais uma problemática, minha tendência à perfeição extrema. Vivi dias de pura lamentação. Entre uma descoberta sua e outra, me via cada dia mais carente. Me apoiei nos amigos, na sua madrinha, nos seus avôs. Nem todos compreendiam, me falavam que você era o mais importante. Era exatamente essa a questão, você era importante , eu queria dar o exemplo de perfeição para não me sentir fracassada.

Senti a falta do seu pai a cada momento. Ironicamente, ele era o meu porto seguro. Nossas conversas no Whatsapp conseguiam ser um misto de tudo o que se passava no mundo e dentro de nós. Antes e até mesmo depois dos desentendimentos. Contava meu dia, meus problemas, ele escutava, muitas vezes discutíamos, mas sempre acabávamos com um Boa noite linda e Boa Noite Príncipe. Depois que nos separamos, me vi caminhando sem um rumo definido. Sem entender que tipo de relacionamento eu buscava a partir dali. De uns dias para cá, tentei suprir essa carência, dando a chance para quem sempre me disseram para acreditar. Tudo em vão. Quando a gente gosta de uma pessoa, não basta apenas a palavra eu gosto de você, são atitudes que comprovam isso. Relacionamentos de amizade, namoro, casamento ou o que for, necessitam de cumplicidade, compreensão. Espero que quando você crescer, entenda esse sentido de cumplicidade. Perceba que a comunicação é o alicerce para um bom relacionamento, o perdão é a chave que abre qualquer porta e a cumplicidade é o que faz você se apaixonar diariamente. Mesmo quando não houver mais esse relacionamento serão esses itens que farão seu coração sorrir de alegria pelos acertos e não sofrer pelos erros cometidos. Esse foi o meu segredo com teu pai, não tivemos nenhum sentimento mal resolvido, apesar de tudo, as lembranças boas ainda marcam mais que as ruins.

Nesse tempo, passamos por outra perda significativa. Minha vózinha fez sua passagem. Deixou saudades. Hoje temos nossa constelação completa no céu olhando por nós. E uma mini constelação tatuada no meu braço, em homenagem à nossa origem. Aliás, outra fato curioso, mamãe fez uma tatuagem em sua homenagem ( nem adianta insistir, você só depois do 18 anos!). São dois elefantes interligados com a frase: o amor vence tudo. Acho que não preciso dizer mais nada, porque você me diz tudo. Esses 10 meses tem sido os meus meses de crescimento. Meus meses de descobrimento e seus primeiros meses de vida, onde cada dia mais você se mostra forte e saudável. Obrigada meu amor, você é a minha maior razão de qualquer coisa.


Marília Fechio

sexta-feira, julho 26, 2013

Aos avós do mundo.

 Não sei quem foi o criador da comemoração da data de hoje, tão pouco sua história. O que sei é que esta pessoa, ou estas pessoas, foram muito felizes em tornarem popular o dia dos Avós. Se tem dia das mães, dos pais, das crianças, dos namorados, eles também mereciam espaço nesse calendário.

Falar de avós é algo muito duro para mim, perdi os meus queridos avós muito cedo, apenas minha avó materna acompanhou meu crescimento. Mas apesar de sentir muita falta dos meus exemplos de simplicidade e amor sem ver a quem, a vida me colocou muitos avós postiços. O meu vô Lázaro, um negro retinto, sempre que me via me abraçava e me rodava no ar. Minha vó Inês que todo dia dizia o quanto eu era abençoada. A Batchan, avó japonesa que sempre contava sobre o outro lado do mundo. Teve também meus avós de passagem, aqueles velinhos que conhecia nos passeios com meus pais, que de algum modo me deixaram ensinamentos valiosos. Meus avós mestres, aqueles que ensinaram a grandeza de ser um profissional, me ensinaram a ter ética, amar aquilo que se faz. E claro, minha avó  Maria, uma espanhola de 97 anos que continua firme e forte em nossas vidas.

Pela manhã quando acordei, olhei no meu celular e vi as mensagens em homenagens ao dia dos avós. Sorri lembrando dos meus anjinhos no ceú. Olhei para minha filha na cama e rezei baixinho pelos seus avós que não souberam ser avós.  Dali algumas horas li uma mensagem que falava sobre quais avós seremos. Me emocionei. Porque ao meu lado eu tenho dois exemplos que suprem qualquer falta. Meus pais são os avós que meus avós foram. São tipo de avós que se emocionam a cada pequeno gesto. Que acham beleza onde quase ninguém vê. Que se multiplicam em 15 só para dar conforto aos netos. Foram avós dentro das diferenças, dentro do desapontamento e serão daqui alguns anos exemplos que seus pais foram um dia. É o ciclo da vida. Como eu quero ser o dia que tiver netos? Quero ser meus pais, assim como eles foram os pais deles.

Por isso nessa data em especial, gostaria de bendizer o ciclo da vida. Bendito sejo o ato de envelhecer e transmitir coisas boas ao mundo. Não importa se seremos avós naturais ou de consideração, basta ser doce com a idade. Passar para as crianças história de um tempo que elas não viveram.Contar experiências como se fossem aventuras. Sorrir pelo sorriso do outro. Como queria voltar ao tempo, viver de novo o instante que meu avô Pedro me ensinou a colher tomate. Sentar em seu colo, no banco do idoso no onibus e observar a paisagem pela janela. Ou então correr para debaixo da mesa fugindo da minha vó Cida, para não pentear o cabelo. Hoje vendo minha filha, acho doce a forma como minha mãe faz ela dormir, ou como é suave a forma como meu pai fala com ela. Chega até dar um ciuminho bobo dentro do peito. Ela é tão pequena, mal sabe que quem a segura são as pessoas mais preciosas de sua vida. Eu não consigo confiar em pessoas que tem medo de se tornarem avós. Quem foge da velhice, foge também de seu íntimo.

Meu desejo para todos, avós ou não, é que encare a velhice por essa ótica. Procure dentro de suas memórias e se depare com suas melhores lembranças, quais figuras estavam lá? Com certeza terá um idoso caridoso, uma alma amiga bem mais velha que te amparou, alguém fazendo seu dia ganhar  força. Conselhos, histórias, o abraço apertado, o choro emocionado, o calor numa noite fria, a sopa em dia de doença, os sins escondidos de nossas pais, o doce antes da refeição, o dinheirinho para comprar alguma coisa na bomboniere da esquina. Entendam, avós tem a missão de amar. Amar sem limites, porque a missão deles já foi realizada com sucesso. Pare para pensar, se não fossem nossos avós não estariamos aqui. Se não fosse o amor deles, nós não conheceriamos o amor. Seja lá qual for tua história, procure e encontrará alguém no papel de avô.

Hoje só tenho que agradecer pelos meus avós, pelos avós da minha filha e rezar para ser um dia metade do que eles foram para nós. O choro esta entalado na garganta, a saudades parece nunca cessar, mas o calor do abraço me consola. Ainda sinto dentro de mim aquela mão massageando meus cachos, aquele suspiro de felicidade ao me ver, a voz forte chamado pelo meu nome errado, o abraço rodopiado. AH, querida vida! Por que tão breve? Por que tão forte? Não tenho respostas, mas tenho uma certeza: Como eu amei os avós que a vida me deu.


Um feliz dia dos avós para todos!



Marília Fechio

segunda-feira, julho 08, 2013

Um brinde aos 40 dias.


Ser mãe é uma sensação inexplicável. Imensurável. Descrever os primeiros 40 dias é praticamente impossível diante do turbilhão de sentimentos que se fizeram presentes até então.  Dizer que são apenas flores é a mesma coisa que dizer que somos felizes o tempo inteiro. Estaremos mentindo a nós mesmos. Tem dias que estou tão cansada que tenho preguiça de tomar banho, vestir uma roupa limpa e comer. Trocaria qualquer regalia por uma horinha de sono. Tem horas que me pergunto: onde esta a pessoa que habitava meu corpo?  
 
Em contra partida existem dias que a serenidade não cabe dentro do peito. Até quarenta dias atrás a vida era uma incógnita, eu tinha medo, sentia saudades, chorava por coisas desproporcionais à minha vida. Agora eu me pergunto: o que eu fiz para receber este ser que invade meu coração e enche minha alma de amor? Não que minha personalidade tenha mudado, a mulher vaidosa continua habitando este corpo,minhas problemáticas continuam, continuo viciada em redes sociais, tenho crises, ainda acredito em paixonites agudas, mas existe uma diferença: nada te importa mais como antes, tudo se resume em ser mãe. Eu diria que é algo inacreditável. 

40 dias e 12 horas atrás eu não tinha nem noção do que era ter um filho. Existiam ideologias, ilusões de uma mãe de primeira viagem. Dizia que não seria uma mãe convencional, seria moderna, multifuncional. A dura realidade é que quando não estou amamentando e trocando fraldas, eu estou dormindo. Não foi fácil, não é fácil e a coisa só entorna a cada hora. A cada noite mal dormida eu peço um minuto de silêncio pela falecida noite de descanso. A cada falta de interesse nas pessoas ao redor, peço pro cansaço ceder só por mais meia hora.Nem sempre a culpa fica por conta do bebê, minha filha não chora por qualquer coisa. Na real ela é boazinha, chora quando tem dor ou fome. O problema é o nosso coração, o vício imediato que criamos quando parimos. Diria até que esse é o maior dos vícios. 

Conforme o tempo vai passando eu me vicio mais nas expressões da minha filha. Fico dependente de suas mudanças diárias, se não as vejo me sinto vazia. A cada silêncio prolongado paro o que estou fazendo e vou ver se ela esta respirando. Não é loucura, ou é, não sei definir. A verdade é que cada dia mais me sinto amando plenamente e pela primeira vez na vida sem me dar conta se estou sendo amada de verdade ou não. Todos dizem que a primeira pessoa que o bebê ama é sua mãe. Eu tenho minhas dúvidas. Confesso sentir um ciúme de quando outros conseguem acalmar a cólica noturna e eu não. Tem momento que me vejo como uma teta gigante. Sem muita utilidade além de produzir leite. Sei que isso não é uma verdade absoluta. Mas essa é apenas um dos sentimentos quando nos tornamos mães. Os primeiros quarentas dias foram assim, um misto de felicidade plena e desespero. Ainda olho para ela e me pergunto se tudo é real. Paro e fico analisando seus trejeitos e choro de alegria. Tão pequena e tão gigante. Nem se quer parece que estou escrevendo esse texto com ela dormindo ao meu lado. Tão tranquila. Até parece que o mundo dela é perfeito.  Para ser bem franca, o meu mundo de hoje nunca foi o idealizado, mas é o mais digno de amor puro e sincero! 

Marília Fechio

segunda-feira, junho 24, 2013

Ser mãe.

Hoje pela manhã senti uma culpa interminável. Você tinha passado a noite inteira chorando, já tinha mamado, não era fralda suja, não era cólica, não sabia o que fazer e entrei em desespero. Me irritei de gritar com você. De clamar pela sua avó aos prantos, de tão nervosa que estava. Era um misto de nervoso com sono. 5 da manhã e você ainda não tinha dormido, minha mãe pegou você no colo e pronto, seu choro tinha acabado.Senti uma raiva dentro de mim, uma incompetência que tive vontade de sumir dali. Como em 5 segundos ela tinha descoberto o que você tinha que eu mãe não consegui em 7horas?

Fui para o teu quarto, deitei e chorei mais ainda. Escondido óbvio.  Meu orgulho era forte demais para admitir que estava com ciúmes. Não demorou muito para você chorar de novo, levantei e fui te pegar. Sua vó não queria deixar, mas eu não poderia deixar essa responsabilidade com outra pessoa. Eram 6 da manhã, só às 8 você pegou no sono. Nesse momento então eu deixei teus avôs velarem teu sono para que eu pudesse dormir ao menos meia hora. Meia hora mesmo, porque dali meia hora voltaram com você choramingando no colo, só eu tinha o que faria você ficar calma. Meu peito nessa altura estava vermelho, de tanto que você mamou na noite anterior. Quando te coloquei para mamar, uma lágrima escorreu dos meus olhos, dessa vez de dor. Como poderia alguém dizer que amamentar era lindo? Não é. Doí. Como doí.

Foi ali que me bateu uma angustia. Por que ninguém te conta sobre as dificuldades em ser mãe? Falar que tudo é lindo é ótimo, mas contar que amamentar é horrível ninguém conta. A angústia que eu sentia era por conta de estar praticamente dormindo, enquanto teoricamente estava fazendo o ato mais lindo que uma mãe faz para o seu filho. Mentira. O ato mais lindo de ser mãe e entender que você terá dificuldades, sentirá vontade de jogar o bebê pela janela ( sim eu senti!), e ainda assim amará com toda a sua força aquele serzinho, ou então aprenderá a amar. Porque de verdade, nem tudo são flores. Eu me pego pensando se a você gosta de mim as vezes, porque nada do que falaram para mim acontece. Acalmar o bebê? Você ficou da meia - noite até as 6 da manhã choramingando, sem dormir e não fui eu quem conseguiu te acalmar. Na verdade só parava de choramingar quando eu dava o peito, e logo em seguida vomitava porque mamou demais. Era função minha saber quando o bebê tinha que parar de mamar? Era função minha adivinhar que o bebê estava com frio enquanto tinham 2 camadas de roupa e 3 cobertores? E cade aquele mito de que as mães sabem o que acontece com seus filhos? Eu não sei. Devo me desesperar?

Agora eu vou responder para vocês mães de primeira viagem:

Não. A resposta é não. Tudo isso são mitos. Mãe que é mãe vira mãe na raça. Por que minha mãe sabe o que se passa? Porque ela criou três crianças e mesmo assim ela aprende muito com seus netos. O que ninguém vai te contar é que bate o desespero sim, isso não é amar de menos. Isso não é ter vocação para tudo menos para mãe. Nem sempre você vai olhar para aquela criaturinha e vai se enxergar nela. Nem sempre você vai concordar com o que o pediatra diz ( acredite em mim, pediatras sempre vão dizer que você esta fazendo errado.) Nem sempre o seu colo vai resolver a situação. E quase sempre seu choro vai fazer a criança chorar mais. Ah! Sim você vai detestar quando vem um batalhão de gente te visitar bem na hora da mamada, isso é aceitável. Até porque essas pessoas não vão te avisar que estão a caminho. Não se sinta culpada por não ver a hora de todo mundo ir embora. Não é que você não goste de visitar, nem queria comemorar o nascimento da sua cria. Acontece que tem horas que tudo o que você mais vai querer é dormir. Não é só isso, teu cabelo vai ficar horrível, sua aparência de cansada vai fazer você se sentir um monstro, você nem vai reparar que está vestindo uma roupa extremamente inapropriada. Aliás você nem vai reparar muito no que esta fazendo, a menos que seja relacionado com o bebê. Dia desses eu joguei minha roupa no lixo e coloquei a fralda suja no meio da roupa suja.

Pode soar como exagero, mas  faz 25 dias que eu não sei o que é vaidade. Faz 25 dias que tomo banho praticamente dormindo de tão cansada, só desperto quando a água quente bate no bico do meu peito esfolado. Faz 25 dias que eu escuto conselhos de todo mundo e nada se aplica à mim.  Faz 25 dias que eu peço arrego para os meus pais e me sinto culpada por isso. Faz 25 dias que eu aprendo a conviver com esse serzinho chamado Maria Laura, que tem sim personalidade própria, se deixar faz seus próprios horários e você que dance conforme a música. Comer? Esse papo de que você tem que fazer a dieta, no meu caso ( espero que seja só no meu) ficou para a história, se eu puder trocar o prato de comida por meia hora de sono, troco sem nem pestanejar. Sim, me sinto culpada por isso todos os dias.

Ser mãe é padecer no paraíso, porém em um paraíso cheio de atalhos. Ser mãe é ser um pouco gladiadora. É entender que quanto mais seu filho cresce mais tarefas você irá ter. Digo tudo isso com conhecimento de causa. Tudo bem, conhecimento de causinha, afinal minha filha não tem nem 30 dias. Estou plena com minha maternidade, mas na mesma proporção em que estou cansada. Daria tudo para ficar um dia inteiro no SPA, só que com uma condição: desde que esse SPA tivesse direito a levar acompanhante, mais precisamente uma mini acompanhante com menos de 3kg e que mama de 2 em 2 horas. Porque ser mãe é isso: detestar a situação mas odiar mais ainda ficar sem ela.

 Marília Fechio